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Dikanda do Reino do Kongo · Memória e identidade

Espaço Interativo

Textos que atravessam a memória, a história e a experiência de um povo. Leia cada narrativa ao seu ritmo e escute as vozes que continuam a habitar estes lugares.

Texto poético

O Medo

No calor do mato, as folhas secam. Uma memória de chegada, desconfiança e mudança, contada a partir da voz de uma comunidade.

O Medo

No calor do mato, as folhas secam.

Eram tempos de cacimbo quando eles chegaram. Em seus cavalos, nos visitaram. Não falavam a nossa língua, não vestiam as nossas roupas, não tinham a nossa cor nem o nosso cabelo. Quando eles chegaram, mama sentiu que nada mais seria igual; papa olhou com desconfiança. Eles sorriam, mas não eram sorrisos inocentes. Avó previu, pediu proteção e tomou a decisão: —Vamos entrar no coração da aldeia. Não que tivéssemos medo da mudança ou do novo; simplesmente, já sabíamos que eles não eram como nós.

Narrativa de memória

Zaire, Memória e Carne

Uma viagem pelo Zaire entre lugares históricos, memórias herdadas, resistência e as perguntas que a história deixa em nós.

Zaire, Memória e Carne

A viagem começou como qualquer outra – curiosidade de quem quer ver o novo. Mas o Zaire não me deu novidades. Deu-me memórias que não eram minhas.

No museu dos Reis, fui engolido por narrativas que se contradiziam. Datas, nomes, versões. A história oficial e a história dita à boca pequena. Saí de lá tonto, sem saber em quem acreditar. Até que cheguei ao túmulo dos Reis. Ali, o chão falava mais alto que os guias. Senti uma estranha paz, como se aqueles que ali descansavam dissessem: não precisa entender tudo, basta sentir.

Mas o tom mudou quando parei diante do túmulo de Dona Mpolo. Uma rainha curadora, morta pelo filho – um rei que cedeu à voz do branco que lhe sussurrou que a mãe era perigosa– . A medicina tradicional, que salvava vidas, foi usada como acusação. Senti um aperto no peito. Como pode uma cultura inteira ser violada de dentro para fora? Como pode um filho negar a mãe por causa de um estrangeiro?

E então, as grutas de Wau Evua. Lá, vi com meus próprios olhos o desespero transformado em resistência. Pessoas que preferiram a fome à submissão. A rocha guardou o eco de seus corpos magros e de suas vontades inabaláveis.

No fim da tarde, à beira do rio Lueje, ouvi dois professores – um com a lógica da ciência, outro com a poesia do mito. E percebi que ambos contavam a mesma história: a de um povo que foi desmontado, mas que ainda respira nas entrelinhas.

Saí do Zaire com a bagagem mais pesada. Não de objetos, mas de perguntas. Chorei por Dona Mpolo, pelos que se esconderam nas grutas, por mim que demorei tanto a ouvir essas vozes.

Voltei a Luanda com uma certeza: conhecer a história é a primeira forma de não se repetir. O Zaire me mostrou que autoconhecimento é, antes de tudo, escutar quem veio antes –mesmo que doa.

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